
"Conta a lenda que tudo o que cai nas águas deste rio- as folhas, os insectos, as penas das aves- se transforma nas pedras do sei leito. Ah, quem que me dera que eu pudesse arrancar o coração do meu peito e atirá-lo na correnteza, e então não haveria mais dor, nem saudade, nem lembranças. (...) Em algum lugar, este rio junta-se com outro, depois com outro, até que- distante dos meus olhos e do meu coração- todas estas águas se confundem com o mar.
Que as minhas lágrimas corrarm assim para bem longe, para que o meu amor nunca saiba que um dia chorei por ele. (...) Eu esquecerei as estradas, as montanhas e os campos dos meus sonhos- sonhos que eram meus, e que eu não conhecia.
Eu lembro-me do meu instante mágico, daquele momento em que um «sim» e um «não» podem mudar toda a nossa existência. (...)
Talvez o amor nos faça envelhecer antes da hora e nos torne jovens quando a juventude já passou. Mas como não recordar aqueles momentos? Por isso escrevia, para transformar a tristeza em saudade, e a solidão em lembranças. Para que, quando acabasse de contar a mim mesma esta história, a pudesse lançar no Piedra- assim me tinha dito a mulher que me acolheu. Para que então- lembrando as palavras de uma santa- as águas pudessem apagar o que o fogo escreveu.
Todas as histórias de amor são iguais."
Na margem do rio Piedra...
Foto de: Filomena Chito
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